22 de fevereiro de 2026
Há emoções na vida que são impossíveis descrever em palavras. E quando elas nos tocam, deixam marcas inesquecíveis, capazes de escrever um capítulo especial na brevidade do tempo que temos para usufruir aquele que é o maior dom de Deus.
Sexta-feira vivenciei essa experiência capaz de deixar sem palavras até mesmo quem faz das letras ofício. Aconteceu em Jacutinga-MG, diante do palco que recebeu um show da banda Rosa de Saron. Por não ser a minha primeira vez, sabia que esse momento seria emocionante, afinal, em todas as apresentações a banda conseguem aflorar os meus mais puros sentimentos.
Foi assim em Pinhal, Mogi Guaçu, Itapira, Conchal e Arthur Nogueira.
Não seria diferente em terras mineiras.
Depois de mais de dez anos sem ir a um show, mais uma vez saí renovado, sentindo-me tocado por Deus. É verdade que isso aconteceu todas as vezes em que assisti uma apresentação nesses quase 20 anos acompanhando a banda: saio renovado em Deus com as músicas, sentindo-me abraçado em todas as palavras e grato pela experiência proporcionada pela banda.
Dessa vez, porém, a emoção foi diferenciada e sou totalmente incapaz de explicá-la em palavras. Bastou a banda começar a tocar a música “Menos de um segundo” para rememorar todas as lágrimas que um dia derrubei ouvindo essa canção, afinal foi ela que me acompanhou no momento mais difícil da minha vida.
Ainda me recordo com exatidão cada segundo do pior dos meus dias e que esta canção tocava alto no meu celular madrugada à dentro. Durante aquela madrugada gelada de agosto, andei diversas vezes ao redor da Igreja Matriz, acompanhado do meu primo Marcelo e ouvindo a música que falava sobre o luto, ao mesmo tempo em que tentava assimilar a ideia de que dentro daquela igreja, da qual ele cuidou com tanto carinho por 57 anos de trabalho como sacristão, o corpo do meu avô começava a ser velado para a despedida de seu corpo físico.
Meu primo era apenas um pré-adolescente, mas sabia o quanto sua companhia era importante naquele momento em que eu vivia o luto.
Daquele dia em diante, meu primo me olhou de esguelha em todos os shows em que fomos juntos, sabendo que eu não controlaria a emoção e iria chorar a saudade. Isso porque a música passou a mexer comigo de uma forma diferente, trazendo lembranças enquanto acalentava meu coração enlutado.
No entanto, o show em Jacutinga tornou a música ainda mais especial ao me fazer uma surpresa inesperada. Nunca poderia imaginar que um dia assistiria a um show do Rosa de Saron e, de repente, teria a grata surpresa de ver a foto do meu avô no telão. Uma foto que enviei para a banda despretensiosamente e que, apesar de ter saído em um vídeo da época, nunca soube que ainda seria usado em apresentações ao vivo.
Seja coincidência divina ou apenas o fato de a banda escolher fotos de pessoas próximas ao local do show, esse gesto tão significativo me marcou para sempre, trazendo momentaneamente a presença do meu herói sem capa, que mesmo após quinze anos de sua ausência ainda me deixa a saudade de tudo o que vivemos e principalmente daquilo que deixamos de viver, ou seja, marcando-me com a mesma emoção de sempre.
“A emoção de saber que eu vou poder te reencontrar um dia”.
Espírito Santo do Pinhal, 22 de fevereiro de 2026.