03 de janeiro de 2026
Esse poderia ser um review de Stranger Things, mas não é.
Mais do que analisar superficialmente uma das séries da minha vida, o que quero é escrever sobre o sentimento especial causado por cada capítulo da história de Mike, Will, Lucas, Dustin e Eleven. Algo que senti de maneira muito intensa no primeiro episódio e agora, quase dez anos depois, foi reforçado com o último ponto final de uma aventura inesquecível.
Stranger Things não é apenas uma série sobre demogorgons, mundo invertido, poderes, vilões e ciência. É uma história de amizade e que tem como principal resultado a nostalgia do que vivemos e principalmente daquilo que sempre sonhamos em viver.
E foi essa a sensação de acompanhar a história ao longo das cinco temporadas.
Reunir os amigos para uma partida de D&D é uma dessas coisas que sempre quis ter feito, mas que infelizmente nunca vivi. Sair por aí se aventurando, sem medo do perigo, também era um desejo, mas que se realizou apenas no mundo da imaginação. E o que dizer então de se viver nos anos 80? Mesmo achando que a geração seguinte foi a melhor para ser criança, hoje posso afirmar que os anos 90 só beberam na fonte da década anterior, com a série provando porque era tão diferente ser criança naquela época.
Lembro, por exemplo, das tardes em que nos sentávamos diante da TV para jogar videogame, imaginando que estávamos vivendo na pele todas aquelas aventuras. Era um desejo normal para qualquer garoto como eu e acredito que Stranger Things trouxe de volta essa sensação, como se eu pudesse reencontrar aquele garoto cheio de imaginação, que no fim se tornou escritor para contar suas próprias histórias.
Acompanhar uma aventura ambientada nesse tempo, portanto, é ter a certeza de que tudo será mágico. E com a trilha sonora sendo a cereja do bolo! Um bolo com gosto de infância e com uma pitada das tardes cercado por amigos que, mesmo não sendo em uma mesa de RPG, era suficiente para sentir toda a felicidade de ser criança.
Planejar como derrotar o vilão é como estar no fim da tarde diante de um videogame, reunindo os itens necessários para, enfim, encarar frente a frente o último boss de um game que há muito queríamos zerar. E que com muita paciência e entusiasmo, finalmente chegamos ao fim, prontos para fazer subir os créditos finais.
Ver o crescimento dos nossos amigos, por fim, é saber que o tempo passa para todos e que a vida não é uma narrativa criada por um mestre de uma partida de RPG. A vida não é um jogo em que seus jogadores podem mudar suas escolhas, tentar novas jogadas e, quem sabe assim, encontrar o elixir prometido de maneiras totalmente inesperadas.
Por mais que o narrador possa, se assim desejar, recomeçar do zero na semana seguinte ou até criar teorias para acalentar o seu coração, no fundo ele sabe que vai chegar uma hora que os seus amigos vão embora, irão escolher uma profissão, construirão uma nova família e até mesmo criarão novos jogadores para o jogo da vida.
E o que fica para o narrador (e nesse caso, para quem vos escreve) é a saudade e o desejo de um dia, quem sabe um dia, poder revisitar Hawkins para não deixar que nunca, em hipótese alguma, as histórias que um dia vivemos e sonhamos se percam no abismo que está muito além do mundo invertido.
Em suma, Stranger Things é nostalgia e uma viagem gostosa ao passado, que fez valer a pena a espera por cada episódio, por cada temporada e pela aguardada apoteose.
Espírito Santo do Pinhal, 03 de janeiro de 2026.